Nas próximas duas décadas, cerca de US$ 83 trilhões deverão passar de uma geração para outra. É possível transferir juridicamente a propriedade de uma empresa, de um imóvel ou de uma carteira de investimentos em uma data determinada. Mas não existe mecanismo equivalente para transferir experiência, capacidade de decisão e responsabilidade.
Esse talvez seja um dos riscos menos discutidos na gestão de grandes patrimônios.
Um patrimônio familiar raramente é apenas uma carteira financeira. Ele pode reunir empresas, imóveis, participações societárias, ativos internacionais, estruturas jurídicas e investimentos com diferentes níveis de liquidez. Preservá-lo exige compreender não somente onde os recursos estão investidos, mas por que determinadas estruturas foram construídas e quais objetivos familiares elas procuram atender.
O Global Family Office Report 2026, do UBS, ajuda a dimensionar esse desafio. Segundo o estudo, 45% dos family offices envolvem a próxima geração de forma plena ou parcial. Ao mesmo tempo, 21% afirmam que os sucessores já possuem idade suficiente para participar, mas continuam completamente afastados das decisões.
Existe, portanto, uma diferença importante entre ter herdeiros e formar sucessores.
Apenas 27% dos family office pesquisados possuem um processo organizado para educar ou preparar a próxima geração para suas futuras responsabilidades. Entre aqueles nos quais os sucessores ainda não estão plenamente envolvidos, 52% pretendem implementar programas de educação ou treinamento financeiro.
Os dados mostram que o tema começou a ganhar espaço, mas também revelam o tamanho da lacuna.
Preparar a próxima geração não significa entregar imediatamente o controle do patrimônio. Significa construir uma transição gradual, na qual os sucessores possam acompanhar decisões, compreender riscos e participar de discussões antes de assumir responsabilidades definitivas.
O próprio estudo aponta a faixa entre 18 e 29 anos como o período mais adequado para iniciar essa preparação, enquanto a participação mais ativa nas decisões tende a ocorrer entre 30 e 39 anos.
Educação patrimonial, nesse contexto, vai muito além de ensinar produtos financeiros. Envolve compreender liquidez, concentração, exposição internacional, riscos empresariais, planejamento de longo prazo e os interesses dos diferentes membros da família.
Uma gestão de investimentos profissional, sem uma sucessão igualmente estruturada, cria uma assimetria perigosa: o patrimônio se torna mais sofisticado, enquanto as pessoas que futuramente decidirão sobre ele permanecem distantes de sua lógica.
Por isso, acreditamos que preservar patrimônio também significa preparar quem irá conduzi-lo. Rentabilidade é parte desse processo. Governança, educação e continuidade são o que permitem que os resultados atravessem gerações.
Um abraço, Fernanda Mansano.




